sábado, 9 de novembro de 2013

War Of Fifty - Sexto capítulo

Capítulo 6 - O anjo das trevas.


     Saria e Jim ficaram apertados um contra o outro por um bom momento até que Torb decidisse acabar com o momento dos amigo.
- Jim? - Disse ele - Ele não estava morto Saria?
Os dois se afastaram mas continuaram unidos pelas mãos enquanto a garota, suja de sangue, se posicionava ao seu lado.
- Foi o que eu pensava. - Ela olhou para o amigo. - Mas aparentemente não está.
- É uma longa história. - Disse o garoto. - E por favor, me chamem de Mart.
- Eu te chamo do que quiser, - Disse Dylan. - desde que fique longe da minha namorada.
Sem que percebessem Dylan já estava do lado de Saria abraçando-a tão forte que o braço da garota voltou a doer.
- Você está bem? - Perguntou ele
Saria ficou surpresa. Tanto pela atitude do garoto, quanto pela pergunta.
- E-Estou. - Gaguejou ela.
Ele passou os dedos pelas maças do rosto dela, afastando uma mecha de cabelo com sangue que havia grudado do lado esquerdo do rosto, mas sem mover os olhos dos dela.
- Eu achei que fosse te perder ali. - Disse ele quase em um sussurro. - Fiquei com tanto medo.
Por um momento a garota tremeu, não porque estava com frio ou com dor, mas sim porque toda a dor que sentia havia passado com aquelas palavras, e se tornado em um sentido da qual ela nunca sentira antes.
- Ela sempre foi muito forte. - Disse Mart sorrindo - Não duvidei do potencial dela em sequer um segundo.
O sorriso dele ainda era o mesmo de quando eles eram crianças, ainda era perfeito.
- Pois eu duvido do seu. - Disse Dylan se virando para ele.
- Eu não estou acreditando que você está com ciumes de mim.
Mart engasgou uma risada, mas Tyrano não fez o mesmo. Ele riu como se toda a graça do mundo estivesse ali.
- Porque está rindo? - Disse Dylan fechando os punhos
- Por que... - Tyrano se aproximou de Mart e o abraçou colocando as mãos na barriga do garoto enquanto ele acariciava o rosto de Tyrano. - Mart e eu somos noivos.
Todos ficaram sem reação e deram ou um passo para trás ou abriram a boca em surpresa, exceto Saria, que deu um pequeno riso cobrindo a boca com as mãos para abafar o som.
- Eu apenas esperava escutar essas palavras antes de morre. - Disse ela - Vocês sempre foram ligados de mais pra mim.
- Bom, - Disse Torb, se recuperando da surpresa. - vocês são muito corajosos. Não existem muitos gays assumidos em Zmik. Mesmo vivendo em um mundo que contém muitas raças e diversidades parece que eles não aceitam muito essa condição.
- E quem liga pra isso? - Disse Mart colocando as mãos sobre as do noivo. - Ser feliz é a única coisa que importa pra gente.
- Estou louco para saber tudo o que vocês tem a nos contar. - Disse Torb
Mas Sophie atravessou sua frente e foi em direção a Saria abanando as mãos no ar e falando enquanto parava.
- De jeito nenhum, isso vai demorar muito. Vamos Saria, você tem que ser curada o mais rápido possível e isso irá demorar de mais, vamos, vamos.
Sophie começou a empurrar Saria para longe e quando a garota loura olhou para trás se sentiu mais feliz do que nunca, pois tinha todas as pessoas que a faziam se sentir especial, olhando e sorrindo para ela.

***

Depois que saíram de perto dos amigos, as duas garotas passaram na enfermaria e pegaram algumas caixas de medicação, mas Sophie alegava que não poderiam ficar ali.
Saria e Sophie agora estavam em um dos banheiros da War Of Fifty, era branco com as separações azuis. Saria estava sentada no balcão onde se encontravam as pias e Sophie passava as mãos para curar os machucados da menina, que brilhavam ao toque da jovem.
Fora as duas garotas havia apenas a ultima porta do banheiro que continuava fechada desde que entraram e Saria imaginava que não estavam tão sozinhas quanto a amiga pensava.
Fazendo uma careta quando um dor ardente passou pelo braço quebrado a garota finalmente soltou a primeira palavra desde que as duas entraram no local.
- Obrigada Sophie, nem sei como posso te recompensar pelo que está fazendo.
- Me leve com vocês quando a competição terminar, - Respondeu a garota afastando as mãos dos braços de Saria - é tudo que peço a vocês.
Saria ficou surpresa.
- Por que não pode sair sozinha? - Perguntou - Eles te prendem aqui?
- Prendiam, se algum de nós que trabalha para os Arcanjos quiser sair só é permitido se encontrarmos alguém que posso ficar de olho em nós, pelo menos durante um ano.
Sophie molhou alguns pedaços de seda que havia na caixa de medicações e enfaixou o braço da amiga.
-Bom se quiser pode ficar comigo depois que eu sair, mas o que te faz acreditar que eu ficarei com os outros depois disto?
Pela primeira vez desde que entraram o olhar das duas se encontrou. A garota loura estava com o olhar questionador e penetrante, mas até ver o olhar de pavor e medo que Sophie tinha no rosto. Por algum motivo estava com medo, e não conseguia esconder isso, mas medo do que? De que?
- Uma guerra se aproxima garota, é melhor ficar perto daqueles de que você confia.
A voz não veio de Sophie, e sim de garota que havia saído da porta trancada. Ela Tinha cabelos azuis e vestia roupas de tecido de couro marrom com uma blusa negra por baixo do casaco. Tinha o rosto fino e olhos grandes e a boca era uma piscina de batom vermelho-escuro. Ela foi em direção à pia e lavou as mãos, mas não precisou secar, por algum motivo a aguá havia penetrado a pele.
- Meu nome é Verônica. - Disse a garota estendendo a mão. - Vi o que fez na arena, adorei aquilo.
- Obrigada e se me viu sabe qual é o meu nome. - Disse Saria apertando a mão da garota.
- Claro que sei. - Verônica puxou a mão, encerrando o contato das duas meninas.
Saria percebeu que a garota não respirava, ao menos não do jeito convencional. Ela tinha pequenas escamas no pescoço que subiam e desciam a cada segundo. Verônica foi em direção à porta do banheiro para se retirar, mas parou ao abrir a porta.
- Ainda nos veremos Saria, hoje a noite.
A menina não virou para falar, e desapareceu pela porta logo depois, deixando o local com um peso no ar maior do que o peso que deixara no peito da garota de luz.

***

Depois de Sophie curar o resto dos ferimentos de Saria, ela a proibiu de sair do quarto, independente da situação. É claro que já havia tentado sair ao longo das seis horas que estivera no quarto, mas toda vez que abria a porta lá estava Sophie, com ossos afiados saindo dos cotovelos.
A menina já estava quase morrendo de tédio quando a porta do quarto se abriu e ela parou de andar pelo quarto e se jogou na cama, fingindo estar completamente calma, mas para a surpresa da garota não foi a outra menina que abriu a porta. Foi Dylan, seguido pelos outros três meninos, Torb, Mart e Tyrano, e com Sophie que vinha logo atrás.
- E então está melhor? - Disse Dylan deitando na cama ao lado de Saria e passando o braço por cima do ombro dela.
- Estou. - Respondeu. - E você?
- Estou.
- Estávamos preocupados com você. - Disse Mart. - Sophie não nos deixou entrar para vê-la.
- Estou bem, - A garota olhou para a médica. - mas acredito que não teria deixado vocês entrarem se não houvesse uma boa razão para isso. - Olhou para Mart e sorriu. - O que foi?
Todos na sala ficaram quietos e um silêncio se instalou enquanto ela olhava de rosto em rosto, todos abaixados, ela deu um riso de escárnio.
- Vocês estão me assustando, andem falem logo.
Todos trocaram olhares e Tyrano e Mart fixaram os olhos um no outro.Saria já havia visto muito daquela expressão e sabia que eles conversavam pelos olhos quando Tyrano balançou a cabeça negativamente.
- Ela precisa saber. - Disse ele em direção ao amante, mas logo se virou para a amiga. - Saria preciso te mostrar uma coisa. - Ele se sentou na cama e colocou a mão dela em seu peito. Estava gelado, mesmo por cima da camisa e pelo calor que fazia naquela noite, mas o mais estranho era que não havia vibração ou movimento algum dos pulmões do garoto. - Sente alguma coisa? - Perguntou ele.
- Não. - Um desespero começou a subir pelo peito da menina e subiu direto para os olhos, onde se instalou em uma pressão que era familiar a ela, pressão que vinha pouco antes de quando ia chorar. - O que está acontecendo Jim?
- Saria... - Os olhos do menino se fecharam mas quando o fez o quarto também começou a escurecer, como se ela própria estivesse fechando os olhos. - Eu já te disse, me chame de Mart.
- Porque isso é tão importante para você? - A escuridão crescia pelas paredes cada vez mais veloz e espessa, e com ela também cresciam as batidas do coração de Saria.
- Porque... - disse ele enquanto as trevas cobriam seu rosto. - Jim não existe mais.
Saria estremeceu e as trevas cobriram toda luz existente no quarto. Ela estava com frio agora e sem que percebesse apertou as mãos com as de alguém do quarto. Mas as mãos não eram as de Mart, geladas e com curvas das quais ela conhecia muito bem. Eram mãos quentes que a esquentaram no instante em que ela as tocou, um calor que ela conhecera apenas a alguns dias, um calor que ela sentia dentro de si sempre que estava perto dele, um calor que sentira quando o beijara na noite anterior. Dylan.
Por mais escuro que estivesse e por mais apreensiva que estivesse, Dylan estava lá, cuidando dela, sentindo ela, estava lá, por ela. Conforme a mão dos dois se apertava e o braço dele a puxava para encostar em seu peito, o ritmo das batidas do coração da menina voltaram ao normal, e ela se sentiu segura novamente.
- Tudo bem. - Disse ela - Você pode contar, eu aguento.
- Tudo bem. - Disse Mart, e então ele começou.
"Tudo começou quando houve aquele acidente em nosso treinamento. Eu morri naquela hora Saria. Tudo ficou escuro, frio e houve uma tristeza da qual eu nunca havia sentido antes, mas logo em seguida eu acordei em um lugar diferente.
A terra era pálida e havia uma fumaça branca por todos os lados, mas embora a paisagem fosse a mais triste possível. - O garoto fez uma pausa e colocou a mão de Saria na cama, interrompendo o contato dos dois. - Eu estava feliz. Não completamente, mas eu estava.
Lá eu não precisava dormir ou comer e o tempo passava muito mais rápido do que passa aqui. Eu conheci pessoas incríveis, e por dias andei por toda a extensão do mundo dos mortos. Até que duas pessoas me encontraram.
Um tinha o corpo completamente metálico e uma pele tão dura como aço, já a outra tinha cabelos longos negros que batiam em sua cintura, sua pele era clara e tinha duas correntes de metal enroladas nos braços que se arrastavam pelo solo. Ambos pareciam não possuir mais do que vinte e cinco anos, e se chamavam Titanium e Corrente.
Eles me disseram que cuidavam dos mortos que chegavam no local e que agora era a minha vez de ser cuidado por eles. Eles me falaram também que eram amigos dos deuses salvadores da Galaxia Z, aqueles que possuem estátuas na cidade central, e eu me senti muito honrado de conhece-los.
Algumas semanas se passaram lá, eu estava feliz mas não completamente, pois o vácuo deixado por não ter você e Tyrano comigo ainda vivia dentro de mim. Até o dia em que eles chegaram em mim completamente sérios.
Eles me disseram que eu seria ressuscitado, que uma guerra se iniciaria em meu mundo e que Zanin, o planeta salvador da galáxia não poderia ajudar agora, então eu teria que lutar essa guerra, e foi o que aconteceu. Duas semanas depois uma fada me reviveu, ela era gentil comigo, mas me treinava mais duro do que Steve, nosso tutor, fazia.
Mas algo estava errado comigo, meus controles perfeitos de guerreiro começaram a sumir, eu perdi o controle das armas e ela me disse que eu não era mais um caçador, que agora era um pilar renascido das cinzas e das trevas e deveria me comportar como um, que deveria mudar meu nome e ser a pessoa que renasci para ser, e não a que eu era antes."
A escuridão começou a abrir caminho para a luz, mas a névoa preta ainda pairava ao redor do jovem.
- Eu consegui controlar a escuridão, e ela me disse que agora era um guerreiro das trevas, mais precisamente, - A fumaça negra começou a entrar dentro de Mart que se levantando da cama fez com que asas negras surgissem em suas costas. - o anjo protetor renascido das trevas.
Cinzas caíam das asas do garoto enquanto se dissipavam com a luz e então Saria se afastou de Dylan deslizando sua mão na dele e foi em direção ao amigo de cabeça baixa. Agora que havia luz no quarto novamente percebeu que Tyrano e Torb estavam sentados lado a lado no chão olhando para eles, enquanto Sophie estava encostada ao lado da porta de entrada do banheiro, e Dylan olhava para eles com pena da cama. Mas o que a chocou foi que percebeu tardiamente que estava chorando e que Mart soluçava com as lágrimas também.
Ela não se conteve e abraçou o amigo o mais forte que pode enquanto ele fazia o mesmo. Nenhuma dos dois falou nada, apenas choraram, se abraçaram e soluçaram juntos até que um foi transmitindo calma para o outro para que conseguissem falar novamente.
- Eu senti tanto a sua falta, senti tanto a falta de Tyrano. - Disse ele aos soluços e a garota viu que Sophie virou o rosto contendo as lágrimas e limpando uma que escapara e escorria pelo rosto.
- Eu também senti a sua. - Disse Saria. - Mart. - Eles ainda permaneceram abraçados mas se afastaram um pouco para que pudessem ver o rosto um do outro. - Eu te amo e sempre amarei, independente do que você seja e de que nação pertença.
- Nós sempre fomos diferentes um do outro Sá. - Disse Mart. - E agora somos mais ainda, somos opostos, luz e trevas, e tudo a luz que eu tenho vem de você agora, portanto me prometa que não vai ficar mais longe de mim, nunca mais.
- Eu prometo Mart. - Disse Saria - Com toda a minha força, prometo que ficaremos juntos até o fim dos tempos.
Eles se abraçaram mais e como eram do mesmo tamanho, Mart teve que levantar um pouco os pés para beijar a testa da amiga e se soltar do abraço.
- Eu também conheci outra garota no mundo dos mortos. - Disse ele.
- E quem era?
Quem falou foi Torb. Aparentemente ele não havia contado essa parte para os outros também.
- Era uma das deusas salvadoras da Galaxia Z, ela era muito parecida com você Saria, se chamava Sa...
O resto do nome da deusa foi abafado pelo som do alarme que tocara por todo o prédio dos alojamento, era o som do alarme de alerta para a cerimônia de iniciação das finas da War Of Fifty e todos os vencedores deveriam ir até a Arena, para que os dois melhores de cada nação fossem escolhidos pela plateia e pelos organizadores.
- Bom, - Disse Tyrano se levantando junto com Torb do chão e todos se viraram para ele. - acho que o resto da conversa fica para depois, precisamos ir.
- Sim, - Disse Mart, virando o rosto para encarar Saria. - precisamos ir.

***

Quando chegaram na Arena todos os duzentos e trinta e cinco guerreiros remanescentes se amontoaram no cubículo cercado por metal. Saria, Torb, Dylan e Mart mal conseguiam se mover mas ela agradeceu por estar ali, pois na plateia estavam concentradas tantas pessoas que ela não conseguia achar Tyrano e Sophie em lugar nenhum.
- Esse lugar está um caos. - Disse Mart passando por alguns guerreiros e abrindo caminho para se grudar nas grades de proteção junto com os outros. Ali era o local onde menos pessoas se encontravam.
- Sem dúvida, - Disse Dylan. - será que seremos escolhidos?
- Creio que sim, - Respondeu Torb. - assisti quase todas as lutas e não vi muitos guerreiros tão bons quanto nós.
- Tomara que esteja certo. - Comentou Saria.
Guerreiras Fadas e alguns guerreiros Dragão que possuíam asas começaram a voar para ganhar mais espaço e Torb estremeceu ao ver uma das fadas, a fada que os atacara na noite anterior, Astar.
- Essa não, - Disse ele e todos os outros inclusive Mart enrijeceram ao seu lado. - com ela na competição estamos perdidos, teremos que tomar muito mais cuidado para não morrermos.
- Não é só com ela que temos que ter cuidado, - Disse Dylan apontando com o queixo a direção oposta do olhar de Torb. - olhe só quem está ali.
A garota que havia falado com Saria e Sophie no banheiro mais cedo estava à alguns metros deles na grade e olhava para eles com um sorriso vermelho sob os cabelos azuis.
- Verônica? - Perguntou ela.
Torb pareceu incrédulo.
- Você a conhece?
- Mais ou menos, - Começou ela. - hoje cedo...
Mas ela não conseguiu terminar de explicar. Uma voz rouca e grave veio de trás dos garotos e se espalhou por todo o Domo com a ajuda dos microfones.
- Sejam Bem-Vindos á mais uma War Of Fifty.
Todos viraram e começaram a gritar e pular eufóricos, menos Mart e Saria, que permaneceram olhando para frente. Eles trocaram olhares, e perceberam que os dois estavam com pavor estampado no rosto. Eles não precisavam virar para ver quem havia falado, mas mesmo assim o fizeram, e quando o viram lá estava ele. Um homem de cabelos brancos, forte o suficiente para derrotar todos ali somente com as mãos e uma pele escura. Ele olhava diretamente para os dois amigos e quando notou quem eram arregalou os olhos e um sorriso malicioso passou pelo rosto do homem. O mesmo sorriso que dera no dia em que Mart havia sido morto, e lá estava ela agora. Em cima de um palco que surgira no Domo como mágica por trás da Arena, com um guerreiro dragão ao seu lado. Estava com os braços abertos e parecia que não envelhecera nada em sete anos, pois Steve, continuava com o mesmo olhar sem brilho que tinha quando treinou Saria e Mart alguns ano atrás.


 Música do capítulo.

     A música do capítulo seis representa todos os sentimentos de Saria e Mart e a maioria dos pensamentos que ela tinha quando o garoto não estava vivo. A música é "Come Home" do One Republic.

           

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